…e no começo (da escrita) era o jogo do rébus: uma espécie de adição sonora de desenhos que, “por meio das coisas”, objetos, gestos e números, que nada tinham a ver com o significado verbal das palavras escritas criadas, permitiu que os seres humanos fossem capazes de comunicar e entenderem-se entre si.
O primeiro rébus conhecido é o desenho de uma cana, que significa reembolso (voltar a guardar no bolso), gesto que Os Espacialistas repetem infinitamente através dos diálogos e trocas de sentido que criam com os objetos que transportam consigo, com a função de medir e mediar as reações poéticas que desenvolvem nos espaços por onde passam. São objetos de medi(a)ção das intensidades reais e imaginárias entre o corpo e o espaço, alguns previamente escolhidos, outros encontrados ao longo do caminho (que também nos caminha), à medida que nos correspondemos com eles e os ouvimos falar entre si.
As imagens espacialistas, desde o início nomeadas de esquissos fotográficos, pela sua relação com o desenho enquanto dispositivo de pensamento, percepção, movimento e revelação, são por natureza jogos de rébus. Contas narrativas da atenção, em que espaços, corpos e objetos dialogam performativamente a várias escalas reais e imateriais. Contradições afetivas que há muito habitam nas imediações dos textos e fragmentos de Gonçalo M. Tavares, enquanto máquinas poéticas de produção de inícios e vice-versa.
Imagens, palavras e objetos, com origens reais e imaginárias diversas, partem do espaço dos livros realizados em conjunto e encontram-se em exposição na Casa-Museu Bissaya Barreto, sob a forma de jogos de rébus. Através de coisas, corpos e fragmentos de texto geram-se diálogos de proximidade e correspondência biográfica entre a imaginação do quotidiano espacialista e a memória do médico cuidador que a habitou.
Rebussados é uma exposição de rebuçados para a imaginação poética de cada dia, onde relações de comunhão entre corpo-espaço, rosto-máscara, gesto-objeto e imagem-texto, em desvio permanente, desembrulham e descobrem formas escondidas de resistência íntima para a vida. O nome da exposição é a soma da palavra rébus, “por meio das coisas”, com a palavra rebuçado que significa “rosto oculto, escondido e boca coberta por onde saem as palavras e entram os alimentos”, reflexo da escolha das imagens e textos que nela se apresentam.
É um jogo de rébus, portador de contra-adições, metáforas e cuidados. Criado a partir de várias formas de apresentar diálogos e correspondências entre texto, imagem e objetos desviados das suas trajetórias de sentido habituais, à escala do corpo-casa de cada um de nós, onde todos voltamos para comungar da presença daqueles que mais imaginamos, cultivar jardins comuns, plantar diálogos e partilhar histórias na companhia daqueles com quem aprendemos a fixar o acaso e de quem sentimos saudades.
Através de uma e muitas formas de atenção, Os Espacialistas + Gonçalo M. Tavares convidam-nos a regressar ao jardim primitivo da escrita e a exercitar a capacidade de nos imaginarmos uns aos outros nas conversas espalhadas pela casa, onde dialogar e partilhar rebussados são possíveis formas desembrulhadas de habitar.
“São rebuçados, meu senhor!"
texto: Os Espacialistas + Gonçalo M. Tavares