Exposição individual na Casa-Museu Bissaya Barreto
R. Infantaria 23, Coimbra
A exposição Weaving Landscapes cruza conjuntos temáticos fundamentais no trabalho de Mónica de Miranda: por um lado, as séries Archipelago e Like a Candle in the Wind, e por outro, Tomorrow is Another Day, Twins e Panorama. Ao invés de se apresentarem em temas estanques, estes demonstram a fluidez que caracteriza o processo criativo da artista. Esses eixos entrelaçam questões de identidade, luta, reapropriação e visibilidade do corpo, com a terra como palco simbólico de resistência e construção de identidade. O corpo é o tema central que atravessa as diferentes camadas da sua obra, oferecendo uma narrativa complexa sobre tensões entre o passado e o presente, o visível e o invisível, e as histórias coletivas e individuais.
Nas séries Archipelago e Like a Candle in the Wind, a artista utiliza a ilha como metáfora para explorar a fragmentação e reconstrução das identidades que surgem dos processos de diáspora. A ilha é retratada na cultura ocidental como um lugar isolado, uma fronteira entre o conhecido e o desconhecido, frequentemente representada como um lugar selvagem e exótico onde se pode escapar da civilização. No trabalho da artista, a ilha não é apenas um território físico, mas também um espaço de reconexão que serve à artista para questionar as dinâmicas de identidade e de pertença. As obras de Like a Candle in the Wind são intervencionadas com cera e pigmentos, enriquecendo a textura e cor das obras e aludindo à necessidade de preservação, não apenas do solo como matriz, mas também da relação entre a memória e história.
Nas séries Panorama e Tomorrow is Another Day, Mónica de Miranda propõe uma reflexão sobre como o espaço urbano e as construções arquitetónicas são marcados pela luta política e pela busca por identidade. Na primeira série, Babel Tower, a artista representa a Tour de l’Échanger, um projeto arquitetónico inserido em códigos e narrativas políticas definidos por sistemas de pensamento pautado pela ideia de que a arte é um instrumento de transformação social. Na segunda série, os edifícios da arquitetura modernista angolana, marcas do privilégio colonial, tornam-se testemunhos das complexas dinâmicas de poder e opressão. A artista interroga as narrativas formadas pela arquitetura, questionando como essas estruturas funcionam como símbolos do poder colonial, da luta pela independência e, atualmente, da gentrificação. A artista interroga-nos sobre o modo como fotografamos a história, como se formam as narrativas e como o estilo arquitetónico é um testemunho da realidade dessa ruína, refletindo sobre poder e posicionamento.
Na série Springboard, Mónica de Miranda fotografa uma piscina municipal abandonada. Anteriomente construída para o usufruto da burguesia colonial, é reutilizada pelas populações periféricas. A piscina, que inicialmente foi um espaço de exclusão, é agora usada para armazenamento e fabricação de materiais de construção. Ao capturar essas imagens, a artista questiona as dinâmicas de posse e uso do solo, sugerindo que a terra, embora muitas vezes negligenciada ou abandonada, continua a ser um terreno contestado, onde a pertença e a identidade são constantemente redefinidos.
O filme Path to the Stars narra o percurso fictício de uma ex-combatente da luta pela libertação Angolana, enquanto viaja de barco pelas margens do rio Kwanza, local de origem do reino do Ndongo, um estado pré-colonial africano tributário do reino do Kongo, criado por subgrupos do Ambundu e liderado pelo rei Ngola. A personagem segue um propósito reivindicativo feminista, cruzando-se com figuras como a idosa, a criança, uma astronauta e soldados que tentam ler o seu futuro nas linhas de um mapa astral de Angola. Questões como o desejo de pertença, a dualidade do futuro e do presente, a relação com o solo, temas constantes no trabalho da artista, estão também presentes nesta obra.
Weaving Landscapes propõe, assim, uma reavaliação contínua da história, do espaço e da identidade, mostrando obras que traçam uma narrativa poética sobre resistência, reapropriação e transformação.