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José Maçãs de Carvalho

21 minutes pour une image

Exposição individual comissariada por Daniel Madeira

 

Com origem em diferentes fases da prática artística de José Maçãs de Carvalho — desde obras já existentes até criações inéditas —, os trabalhos aqui expostos revelam-se na tensão entre a imagem fixa e a imagem em movimento, evitando um comprometimento total com qualquer possibilidade de polarização. A fotografia e o vídeo não se afirmam como campos opostos, mas como regimes visuais em fricção contínua, onde a imagem se pensa enquanto duração, deslocamento e relação. Neste território instável, os conceitos de unicidade e eternidade entram subitamente em contradição, colocando em crise a ideia de uma imagem autónoma e definitiva.

O caminho traça-se a partir da impossibilidade de a fotografia existir numa ontologia singular. A imagem é forçada à convivência — súbita ou planeada — com um seu semelhante. Dessa relação, emerge uma visualidade invisível. A fotografia, enquanto imagem, manifesta-se assim como uma aparição intersticial e intuitiva, mais próxima de um acontecimento do que de um objeto fixo.

Vinte e um minutos para uma imagem são milhares de imagens. Esta afirmação factual evidencia a dimensão temporal que atravessa qualquer experiência visual. Um vídeo é composto por uma sucessão vertiginosa de fotogramas, tornando explícito que a imagem em movimento não substitui a imagem fixa, mas, antes, a multiplica, fazendo do próprio devir matéria imagética. Falar de intersticialidade é, por isso, falar também de sobrevivência: da imagem que resiste à saturação, à aceleração e ao consumo contínuo do visível.

Importa refletir, neste contexto, nesta imagem da imagem e no gesto — inevitavelmente hierarquizante — a que a submetemos diariamente. Atribuímos valor, permanência ou esquecimento às imagens de forma quase automática, condicionando a nossa relação com o que vemos — a exposição propõe uma suspensão desses automatismos. A imagem pode surgir da série ou pode forçá-la. A sua vizinhança pode ser construída ou ocasional, regulada ou acidental. Nestes movimentos, a fotografia passa a existir mais ou menos em detrimento de si própria, cedendo lugar a uma intuição que se faz imagem.

Não se trata de representar o real, mas de estabelecer com ele uma relação adulterante, apenas porque reconhecemos estar perante uma narrativa da narrativa, um seu duplo: pérfido, armadilhado, deslocado. Ainda assim, não deixamos de ser afetados pelas suas derivas e tentações. Mesmo quando sabemos que estamos perante um artifício, o olhar cede. As obras expostas revelam, assim, a fragilidade da nossa posição enquanto espectadores e a persistência do desejo de acreditar na imagem.

Entre o fixo e o móvel, entre o único e o múltiplo, estes trabalhos propõem uma experiência de atenção prolongada que demonstra o potencial inesgotável da imagem.

Daniel Madeira‍ 

CAPC
Coimbra

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