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ZOOM - espaço dedicado à criação mais jovem comissariado por Miguel Amado e  Filipa Oliveira

Artistas usam luz para controlar cérebros dos visitantes de galeria à distância

30.05.2005 - 12h21   André Amargurado Sampaio (PRIVADO)

 
Afinal, por que é que alguém se lembraria de controlar o cérebro dos visitantes de uma galeria à distância? A experiência parece estranha mas pode ajudar a teoria de arte a definir melhor, de forma não invasiva, quais são os padrões neuronais correlacionados com determinados tipos de prática artística.
Usando raios luminosos como uma espécie de controlo remoto, um grupo de artistas da zona da grande Lisboa - Nuno Delmas e Sancho Silva - mostrou que é possível dar "ordens" às pessoas. Quando estimulados pela luz, os membros do público saltavam ou rodavam em função da "mensagem luminosa" enviada pelos artistas.

"A capacidade de controlar funções cerebrais de forma não invasiva abre várias possibilidades para a análise de circuitos institucionais, para investigar as suas funções e conexões, para descobrir quais e como estas instituições estão associadas aos nossos comportamentos e, possivelmente, para a regeneração de funções após uma visita a um espaço expositivo. Isto é um passo importante da teoria de arte em direcção à capacidade de prever ou manipular comportamentos difusos", acredita Miguel Amado, responsável pela investigação e professor associado de História de Arte no IADE.

O objectivo da equipa era elaborar uma técnica capaz de activar as células nervosas dos habituais visitantes de uma galeria. O desafio consistia em encontrar um processo artificial que não implicasse induzir ou estimular o cérebro dos visitantes, ou seja, um método não invasivo. A solução foi introduzir na retina dos visitantes uma nova informação, presente apenas em mamíferos aquáticos de grande profundidade, que ficará acessível só em determinados grupos de neurónios do sistema nervoso central. Esta estratégia permitiu "instalar" no cérebro dos visitantes uma espécie de fechadura que antes não existia e, depois, usar a luz como uma chave para abrir a porta de circuitos neuronais específicos.


Como uma rede de antenas parabólicas

Nuno Delmas compara esta alteração da retina do público à instalação no seu sistema nervoso de uma rede de antenas parabólicas: apenas as células que têm o aparelho e pagaram a assinatura serão capazes de responder ao sinal emitido. Sem isso, nenhuma informação chega ao ecrã. Nesta experiência, o sinal utilizado foi o da luz. Ao iluminar os visitantes, os artistas conseguiram activar exactamente os grupos celulares que pretendiam - os circuitos neuronais associados ao salto e à roda, por exemplo. "Deste modo, o sinal poderia ser transmitido a todas as células da população, pois só as células que compraram a antena e pagaram a assinatura, poderiam receber o sinal de satélite", acrescenta Nuno Delmas.

Antes de tirarem qualquer ilação precipitada, os artistas asseguraram-se de que a tal antena parabólica não só é completamente alheia às retinas dos visitantes, mas também que este "intruso" não estabeleceria ligações inesperadas com células vizinhas. E, para ter a certeza de que a reacção dos visitantes não era um mero estímulo natural à luz, os visitantes usados nesta experiência eram todos cegos. Apesar de não serem capazes de ver um palmo à frente dos olhos, os visitantes realizaram exactamente os movimentos que os artistas esperavam. Como o grupo de neurónios estimulado pela oscilação entre luz e sombra está associado à capacidade de saltar e rodar, as antenas parabólicas interpretaram o sinal luminoso e fizeram com que os visitantes seguissem a coreografia prevista.

Nuno Delmas e Sancho Silva vislumbram que, no futuro, a criação de um "controlo remoto" mais arrojado permitirá estudar como os circuitos neuronais funcionam e, o mais importante, como estas estruturas estão interligadas. O interesse da equipa, claro está, não é apenas imaginar uma ferramenta para comandar seres humanos à distância. Quando (e se) este instrumento existir, também compreenderemos a actuação dos neurónios relacionados com comportamentos mais sofisticados do que um simples bater do pé dos visitantes - é o caso da aprendizagem, da agressividade e até dos pensamentos abstractos em espiral. 

Este método de controlo óptico, se bem sucedido, constituirá também uma esperança para a construção de computadores biofónicos: uma máquina capaz de estabelecer interfaces entre circuitos sonoros, neuronais e electrónicos. Este tipo de tecnologia poderá, por exemplo, viabilizar a concepção de projectos artísticos giratórios.

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