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Nesta exposição, Ricardo Angélico apresenta um novo conjunto de trabalhos onde se podem distinguir duas partes: um grupo de trabalhos inspirado no Ku klux klan, a partir da história de Stetson Kennedy, que nos anos 40 se infiltra no grupo com o objectivo de destrui-lo ou desacreditá-lo; e um outro de pinturas tematicamente independentes, lidando genericamente com noções de aventura, compromisso e opressão em contextos específicos, ficcionados ou não.

A primeira série de obras propõe episódios de uma hipotética organização do Klan, pequenas ficções à volta de um grupo marginal que embora se apresente como variação/actualização do klan original, poderia ser de qualquer grupo extremista parecido, mais politizado ou integrado, com a sua mecânica interna de propaganda, culpabilização, instigação violenta, recrutamento, etc.; ainda as dinâmicas individuais desses membros com vida dupla e existência mais ou menos frustrada, movimentando-se em comunidades complacentes que os toleram tanto quanto receiam.

Existe um certo pendor novelesco que uma série deste tipo favorece: a criação de personagens em continuidade; a organização de pequenos quadros dramáticos que podem sugerir ambientes domésticos ou fantásticos, absurdos ou épicos, quase como episódios de uma soap opera onde o tema pode ser sério e a forma pode ser ligeira, num registo que se imagina próximo do cinema de aventuras, da banda desenhada ou da literatura sensacionalista.

Há um conjunto de desenhos onde este universo é desenvolvido num exercício mais narrativo/ textual e onde a fragmentação de episódios, as micro-narrativas dessa comunidade imaginária se expande como um work in progress, um estudo alargado de personagens e acções, como esboços para um guião cinematográfico.

Comum ao conjunto de todas as pinturas é a atmosfera de instabilidade e insegurança que domina cada pequeno acontecimento, reflexo de uma convivência problematizada de homem com tecnologia, do homem com a natureza, de um desconforto ou desajustamento a que são sujeitos os actores em cada imagem-metáfora. Embora não existam enquanto comentário específico ao mundo actual, não custa estabelecer paralelos com vários aspectos da corrente situação planetária e dos variegados modelos de crise que ocupam as redacções noticiosas.

Há nelas uma equivoca serenidade pré-apocalíptica, a presença constante de uma ameaça, um elemento opressor, um perigo indiscernível, um mistério, uma situação opaca, prenúncio de uma transformação violenta ou convulsão individual. Cada uma construída a partir de um concreto evento histórico, científico ou cultural. Por exemplo: um trabalho glosa sobre a construção da bomba atómica a partir de um cenário quase pré-industrial; outro explora o rapto de Eichmann por agentes israelitas na Argentina; outro ainda aproveita um motivo de um filme favorito amplificando-lhe as consequências epidémicas; outro inventa um cenário para uma frase de Beckett. O que há de teatral em cada pintura é também a tentativa de construir uma tensão indefinida, de sugerir uma violência latente que acrescente densidade à leitura da imagem e sugira um seu desenvolvimento.

O título da exposição é retirado de uma cena do filme Paris-Texas, de Wim Wenders: é parte do discurso de um louco que o protagonista encontra numa ponte, e que prega ao tráfego indiferente uma mensagem apocalíptica, numa cena espantosa e perturbadora (como são tantas vezes os discursos destes oradores marginais) que parece pertencer apenas à banda sonora para logo se materializar inesperadamente, provocando um sobressalto. O título não só funciona enquanto advertência poética, plena de sugestões dramáticas, mas sobretudo como agregador dos vários trabalhos da exposição, cada um deles à sua maneira, reflexo de uma angústia muito similar.

 

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Exposição