Pesquisar
ENGLISH

Sobre

Pensando o não-estratificado com Sérgio Costa >Strata<

Partindo num Minérvico vôo de espanto através da série experimental >strata<, de Sérgio Costa, acompanhamos um modo de experimentação artística sobre estratificação enquanto arquivo da natureza apreendida e por intermédio do qual somos convidados a afastarmo-nos de princípios geológicos, como a >horizontalidade original< e onde supostamente as estratificações rochosas sedimentares se formam em topografias horizontais. >Strata< questiona horizontalmente camadas de arquivos de realidade. Na série Strata de Sérgio Costa é-nos dada uma nova estratégia diagramática, não só através da pintura, mas também, por alterações dimensionais em experiências estratigráficas efectuadas a partir de 2012, pela introdução do princípio do mapa fragmentário em Strata #15, e pelo princípio anaglífico nos Strata #19, #20, #21, tal como foi inicialmente apresentado no Museu Geológico de Lisboa (5 Abril a 3 de Maio 2014) e agora na sua exposição individual - no âmbito do Prémio Arte Laguna [Veneza 2014] em Maio-Junho de 2014 na galeria Carlos Carvalho Arte Contemporânea em Lisboa (14/05-04/06/2014), Portugal.

*
Strata pode surgir-nos em pares, numa união dupla ou em várias camadas. Por isso, um estrato serve os outros como um "substratum" (Deleuze/ Guattari, A Thousand Plateaus ) - e poderemos adicionar - como duas pinças de lagosta (imagem de strata de Deleuze e Guattari) ou como camadas de pedras, stratus atmosférico assim como a pele estratificada de uma cebola. As camadas de strata podem ser rígidas ou invertidas, elásticas ou tensas; em todo o caso, movem-se e não são intemporais, mesmo nós humanos as observamos como relativamente estáveis, strata são já parte de um intervalo de tempo e de um desvio de lugar, assim como as camadas de experiências, ou como nós as chamamos aqui: estratos de atenção desenvolvidos por Sérgio Costa.
Strata não aparecem necessariamente como camadas de rocha e a estratificação não é igual à petrificação horizontal, no entanto >strata< pode - tal como na imagem sujet das pinturas de Sérgio Costa - revelar-se como camadas de rochas - não apenas densificadas pela pressão, mas quebradas - redobradas ou transformadas em mapas, fumo, argila e até pó de exumação da decomposição dos proto-objectos.

*

Strata surgem como camadas de duas imagens nos dois lados de uma linha interstícia. A linha interstícia orienta-nos muitas vezes nas pinturas de Sérgio Costa e, como tal, deixa-nos descobrir o seu trabalho como um mapa de materiais anónimos ou desconhecidos na observação dos quais ganhamos uma certa cumplicidade e que para nós é um primeiro e necessário "momento de desilusão" identificado como pedra. No entanto o trabalho de Sérgio Costa é uma meditação sobre a virtualização do nossa (visível) e tangível realidade, supostamente estável e fixa. E por isso, não é apenas um acto de decisão se os Strata-mapas são indexicais ou relacionáveis com um objecto material (o território da pintura) ou se por outro lado é o "território em si", index sui, a apontar para si próprio. O tornar-se visível das grelhas dos strata converte-se numa técnica e numa estratégia de orientação em Strata #15, #17, #18, uma série de três pinturas que se tornam próximas do princípio inicial visível utilizado por Sérgio Costa na série "Sampling puzzle", de modo a criar mapas de orientação num mundo des-estratificado.

*
Na sua maioria os óleos sobre tela/linho >Strata< são compostos por pelo menos duas estratificações ou camadas que unificamos perceptualmente num primeiro olhar - as excepções aqui são >Strata< #5 e os Strata anaglíficos #19, #20, #21 que parecem confluir numa unidade da imagem, no entanto, temos que nos lembrar que falta >Strata [#1]< e, como tal, uma primeira concreção da realidade em Sérgio Costa confronta-nos com a multiplicidade anti-fundacionalista dos >strata< e com a sua estratégia artística de des-estratificação. Por consequência, as linhas entre duas camadas da imagem são por vezes linhas intersticiais mais (#2, #6, #8-11, #13-14, #16) ou menos (#3, #4, #7, #12) visíveis entre as duas partes, representando a formação do calcium estratificado na pintura, projectando-nos para a reflexão geo-filosófica sobre strata seguindo a tradição de Nietzsche, Foucault, Deleuze ou mais recentemente Negarestani.

*
Strata#15 des-estratifica, não apenas a restante série de pinturas antes e depois do número 15. Ou seja, >Strata #15< revela outra estratificação, não apenas restos de mapas, mas também desvia a nossa atenção para o facto de que strata segundo Sérgio Costa são em primeiro lugar mapas e como tal deveriam ser estudados - não nas ciências da geografia ou geologia - mas "na pintura" - como Deleuze referiu no seu pequeno e precioso texto "What Children say". Strata #15 é um excelente modo de estudar pintura enquanto processo de mapeamento - uma estratégia temporária de orientação no tempo, espaço e intensidade afectiva - e tudo isto se situa na prática.

Quanto mais próximos nos sentimos dos >Strata< de Sérgio Costa, mais o processo visual da pintura como mapeamento se torna visível, mais se distancia o observador dos >Strata<, mais virtual a superfície dos trabalhos de Sérgio Costa em geral se torna. >Strata #15< é também o lugar onde >strata< é simultaneamente formação estratificada aberta e mapa, régua e lápis, mão e pensamento, respiração e ritmo, juntos sobre a superfície. Deste modo, >Strata< #15 convida-nos a ir para além das possibilidades que sempre imaginámos as coisas poderem ser nas suas formas historicamente estratificadas e metodologias - e na relação com as nossas vidas. >Strata< de Sérgio Costa perguntam-nos:
Como nos orientamos por entre e em cima das estratificações?
Como nos orientamos por entre e em cima do que sempre considerámos ser estável, fixo, concreto ou baseado em factos e princípios científicos?

*
Existe, uma outra importante nova dimensão nos mais recentes trabalhos da série >Strata< de 2013-2014, que começa com proto-objectos subdeterminados: formas de massa de gesso e o seu processo de secagem, através do qual a porosidade surge nos Strata #20 e #21, exibidos num espaço anterior ao da exposição no Museu Geológico. E mesmo após estas frágeis coisas subdeterminadas serem transpostas para a esfera da pintura, onde as podemos ver como paradoxos (uma fatia de um proto-cérebro e/ou uma fatia de pão torrado petrificado simultaneamente), é ainda assim ilimitada a nossa imaginação ao observá-las no seu jogo de correspondência de similitude trivial. A concreção destes sub-objectos leva-nos mais longe, auferida pelo seu transporte e enraizamento contextual num espaço museológico, o Museu Geológico em Lisboa, no edifício da Academia Portuguesa das Ciências. Os Strata de Sérgio Costa, tornam-se assim "equivalente real", uma síncope virtual dos objectos petrificados, inicialmente exibidos no Museu Geológico de Lisboa, tornam-se um princípio artístico de desterramento, "desfundamentação" e virtualização do espaço museológico e dos seus objectos em exibição, e colocando em questão a fundamentação científica ou a "imutabilidade" das leis científicas e ordens ortodoxas.
*

#Ungrounding Strata#
Nos Strata #20 e #21, a porosidade, mostrando uma abertura de crateras e vales em desterramento diferente do seu equivalente geológico de sedimentação, pode ser perspectivada como uma estratégia artística oposta a uma sedimentação geológica horizontal, um dos princípios da estratificação. >Strata< de Sérgio Costa exuma a fixidez da nossa percepção habitual das coisas e assim a estratificação, enquanto camadas de rocha, começa a decompor-se, enquanto nem mesmo a mais dura rocha, sobre a qual as religiões acreditam poder ter sido construídas, escapa a este princípio de virtualização, des-estratificação ou desterramento. Através da introdução das trabalhos anaglíficos", Sérgio Costa pode agora ser visto em 3D, sem necessidade de ir ao cinema multiplex - o modo cinemático anaglífico alcança em 2014 o Museu Geológico, catapultando o observador para uma natureza 2.0. Quanto mais o observador parece recuperar nesta ilusão óptica, a estrutura 3D "original" do objecto em estudo, numa "reestratificação" da realidade, quanto mais tenta enraizá-las num plano platónico, mais o >strata< se virtualiza e desterra.
Lisboa, 17 de Abril de 2014

Do livro em pré publicação:
Alexander Gerner (2014). Strata. Sérgio Costa. Books on Demand: Norderstedt
Alexander Gernr nasceu na Alemanha e vive em Lisboa. É um investigador em filoosfia, membro do CFCUL na Universidade de Lisboa com o projecto http://cognitiveenhancement.weebly.com/
O seu trabalho é financiado pela fundação FCT com uma bolsa Post-Doc: SFRH/BPD/90360/2012

Ver apresentação

 

Exposição