Pesquisar
ENGLISH

Sobre

» L’imagination est le véhicule de la sensibilité ! Transportés par l’imagination (efficace) nous touchons à la vie, à cette vie même qui est l’art absolu lui-même. L’absolu, ce que les mortels appellent avec un délicieux vertige la somme de l’art, se matérialise instantanément... Il fait son apparition dans le monde tangible, alors que je demeure à un endroit géométriquement fixé, dans le sillage de déplacements volumétriques extraordinaires, avec une vitesse statique et vertigineuse ». 

Yves Klein, Le Manifeste de l’hôtel Chelsea, 1961.

Mesmo já tendo escrito, algumas vezes, sobre a sua obra, Sandra Cinto surpreende-me sempre pela capacidade em supreender-me, pois há uma imaginação sensível na sua prática de arte, como querer uma reivenção constante. Parece-me que a sua imaginação não encontra quietude, está sempre em busca do fazer, transformar. Da mesma maneira que a artista deambula pelo desenho - desde a pequena escala até ao walldrawing, pelo objecto mais íntimo, pela escultura mais silenciosa até aos pórticos monumentais, Sandra expõe a circularidade de ideias, afectos, referências existente no seu acto de criação.

A artista criou uma biblioteca de imagens que configuram a sua panóplia - escadas, baloiços, velas, candelabros, livros, camas, armários, peões, barcos, estantes, pautas musicais, usando-as em todas as suas obras, como uma caligrafia pessoal e intransferível. Sandra mistura em seu imaginário poético-plástico a pureza transcendente de Giotto, Artur Bispo do Rosário e José Leonilson, a metafísica de Chirico, Morandi e Guignard, o onírismo de Magritte, o essencialismo de Yves Klein, Piero Manzoni, Eva Hesse e Mira Schendel: artistas com os quais a artista mantem uma relação de cumplicidade.

Nesta mostra, Sob o Sol e as Estrêlas - Hemisfério Norte, Sandra cumpre esse rito mágico do essencialismo, ao preencher o volumoso espaço da galeria, com uma solitária mesa, escorada com uma pilha de livros, tendo como companheira apenas um singelo banco e uma solitária mala. Do topo deste corpo, partem pequenos barcos de papel, pendendo do seu centro para inundar o espaço. Sim, são barcos infantis, daqueles que fazemos como passatempo, para o brincar, mas também parecem pequenas almas a navegar num espaço que não é palpável. Para a artista estes barcos são as almas que sairam  do Hemisfério Norte em busca de dias felizes e noites de esperanças, algures.  Sendo neta de imigrantes – como grande parte dos brasileiros – o partir é tema de conversa à volta da mesa, na leitura dos livros, na solidão das memórias vividas.

Este universo torna-se patente nesta instalação, feita com ternura especialmente para Portugal, país que deu enorme contributo ao que chamamos imaginário brasileiro, com a melancolia da partida a criar grandes obras. “Oh! pedaço de mim, oh!  metade arrancada de mim, leva os olhos meus, que a saudade dói como um barco, que aos poucos descreve um arco e evita atracar no cais”.  Em torno deste solilóquio, Sandra Cinto pinta as paredes em cores que lembram mapas antigos, e sobre elas desenha sete mares, chamando-os  Da Série Travessia difícil.  Sobre estes mares, encontramos imagens de pequenas pontes, finas, imponderáveis, imaginárias, representando a esperança para uma boa travessia. 

A arte é mágica na medida em que torna o intangível em algo tangível. Nietzsche afirma que a arte é uma revelação do mundo sensível, ainda não conhecível, mas alcançável. A arte é a única certeza injustificável de um mundo sensível comum a todos nós e, em nós, o ponto de apoio da verdade, parece-me dizer Sandra Cinto, em suas obras. 

Paulo Reis

Este texto é dedicado à memória de Fernando Pessoa, poeta que me fez descobrir o sentido da verdade.

 

 

Exposição