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Sobre

“(…) na realidade, não é só aos homens que cada um de nós está ligado por um sistema de influências, é também aos objectos. Portanto, sou obrigado a utilizar uma nova definição, segundo a qual uma sociedade é um conjunto de pessoas e de objectos, ligados por um sistema de influências.”1

 

Sobre a estranheza do mundo contemporâneo, o filósofo Odo Marquard (1999) declara que “os inúmeros avanços científicos e técnicos existentes numa sociedade impõem um obstáculo acrescido aos indivíduos em adquirir e empregar a experiência num mundo onde o que é familiar e próximo rapidamente se torna estranho.”2 Esta estranheza pode ser fruto de um processo de aceleração da vida e do quotidiano, no qual convergem, por exemplo: uma determinação mais obscura das origens de certos problemas; uma divisão do poder mais volúvel; uma fronteira no acesso ao poder; adversários ocultos; alterações drásticas no ambiente à nossa volta – rural ou urbano, a rápida obsolescência dos objectos, os nossos incontáveis heterónimos sociais e em rede. Tudo colabora para sentirmos o mundo mais nebuloso e ambíguo, vítimas e habitantes de uma caixa de Pandora, numa variante revista e aumentada. 

“Objectos de companhia para um mundo aparentemente continuo” habita esta estranheza e estará organizada numa lógica de conteúdos fragmentária ou em aberto. É um registo de caminhadas inacabado – entende-se aqui a caminhada, como método ancestral de viagem crítica, narrativo, que catalisa o conhecimento, o acto artístico e a ficção. 

A exposição divide-se em vários capítulos que marcam diferentes momentos desse trabalho de campo realizado nos últimos meses, combinando diferentes pontos geográficos, literatura, artigos científicos, fábulas e outras estórias. Os seus elementos convergem para uma narrativa de imersão, em formato de instalação, que se oferece ao visitante de forma livre e inacabada.

Os objectos apresentados – restos, escombros, pedras, pó, desenhos, fotografias, animações-vídeo, livros, integram a relação entre o legado de conceitos como o impulso utópico, a condição tecno-humana, a extinção dos seres e dos objectos, a estranheza advinda da “grande aceleração” do impacto da actividade humana na camada geológica da terra, bem como a ideia de insularidade enquanto desejo de imaginação, autonomia, isolamento ou refúgio. 

 

1 Friedman, Yona (1977), Utopias realizáveis, Lisboa: Sociocultur
2 Marquard , Odo (1999) Apologia de lo Contingente: Estudios Filosoficos, Valencia: Institucio Alfons el Magnanim

 

Exposição