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O Ofício de Viver de Daniel Blaufuks

A série de "O Ofício de Viver" é um trabalho em fotografia, inspirado pelos diários de Cesare Pavese (e também pelo filme “El Sur” de Victor Erice), sobre a experiência do tempo e das recordações que sobram dos dias que passam sem deixar rasto.

Os trabalhos fotográficos a preto e branco e a cores e apresentados em variados formatos, são fragmentos escolhidos de um período de tempo complexo para o seu autor.

A série é composta por imagens, quase naturezas mortas, da banalidade do quotidiano, encenadas para este trabalho em espaços recolhidos e com pouca ou nenhuma ligação com o exterior. São peças em diálogo consigo mesmas, como páginas de um diário, de um tempo que parece suspenso. São fotografias sem acontecimento ou documento ou ruído. Não são imagens de paisagens nem de rostos nem de guerras. Estão muito distantes das vítimas no Iraque, Afeganistão, Irão, Palestina ou Haiti. E, no entanto, tudo isso aconteceu enquanto este trabalho foi produzido e muito acontece enquanto este trabalho é agora visto. Enquanto vivemos, enquanto sabemos, enquanto pouco ou nada fazemos.

As fotografias, com uma forte carga simbólica, remetem não só para a nossa memória pessoal, como igualmente para representações presentes na Pintura e no Cinema e que fazem já parte da memória visual comum: os limões de Cézanne, o monge de Zurbaran ou o candelabro da sala de baile em “O Leopardo”.

Na História de Arte um copo de água simboliza "pureza", o vidro “fragilidade” e um limão "fidelidade", mas outras relações metafóricas ou simbólicas são possíveis e desejadas com as imagens expostas: a angústia, o desejo, a memória, a vaidade, a luz, a ausência, a possibilidade de suicídio, a solidão, o recolhimento, a esperança, etc. São trabalhos que falam da relação do passado com o presente e da importância deste no futuro. Interessa ao autor não a imagem em si, mas o que ela representa ou pode representar dentro de um mesmo espaço e de um mesmo momento.

Escreve Pavese no seu caderno: "Durante a viagem de comboio pensei que aqueles campos que via fugir, as cortinas de árvores, as casas, os recantos, as recordações de outros tempos, tudo serviria para fabricar memórias, para gerar o passado. Por banal que fosse o momento, e, no fundo, aborrecido, reencontrá-lo um dia já não seria banal" e anota num outro dia que "não se recordam os dias, recordam-se os instantes".

Esta percepção de perda imediata do presente será aquilo a que chamamos vulgarmente de "momento". Uma fotografia é uma cristalização dessa mesma experiência, uma "imagem-tempo" (e não, como no cinema, uma “imagem-movimento"), e é, simultaneamente, passado e presente sobrepostos numa única experiência. O que (não) acontece nestas imagens poderá ter acontecido ontem ou hoje ou vir a ser amanhã ou todos os dias.

As fotografias são contentores de um instante, que se transforma num espaço de tempo infinito. E é através das fotografias e de uma gestão diária do factor tempo ou, melhor, da perda deste, e não da experiência de tempo em si (que flui sem que verdadeiramente nos apercebamos), que adquirimos a percepção e a memória dum presente, que rapidamente se transforma em passado.

A imagem fixa, tal como, pela sua inutilidade, um relógio parado, alerta-nos precisamente e por um breve momento para esse fluxo cronológico constante e eternamente presente. É precisamente o tempo interrompido que nos torna conscientes do tempo em movimento. Todas as fotografias vão aparentemente contra essa corrente do tempo, constituindo assim um presente sempre presente. É a memória que as transforma em momentos, o acontecimento de um dia qualquer numa ocorrência de todos os dias ou apenas de um dia concreto. Viajamos sempre no presente, mas nunca o alcançamos nem o conseguimos segurar, porque não temos a capacidade para o travar. O presente continuará após a nossa existência e essa noção é talvez mais assustadora do que a própria ideia de morte. Mas são precisamente as memórias e os arquivos que permitem transições entre os tempos e entre gerações.

Estas imagens parecem existir fora deste presente ou até apesar deste presente. As fotografias ambicionam a intemporalidade e parecem não conter tempo, são interrupções, pausas ou cortes nessa linha infinita que, no entanto, não se deixa interromper. São momentos em suspensão e memórias não concretas. Evaporações ou arquivos de algo que não é passível de ser arquivado.

Paralelamente são apresentados alguns filmes da série "Memory Films".

A 18 de Agosto de 1950 Cesare Pavese anota na última página do seu diário: "Palavras, não. Um gesto. Não escreverei mais". Poucos dias mais tarde, suicida-se num impessoal quarto de hotel de Turim. Não escreverá mais.

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Daniel Blaufuks utiliza no seu trabalho a fotografia e o vídeo, apresentando o resultado através de livros, instalações e filmes. Os seus temas de predilecção são a ligação entre o tempo e o espaço e a representação da memória privada e pública. Mais informações em www.danielblaufuks.com

Exposição