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Tudo o que está em cima é como o que está em baixo

 

As miragens são imagens múltiplas formadas pela refracção atmosférica. Cada tipo de miragem envolve uma estrutura térmica específica na atmosfera, e uma localização particular dessa estrutura em relação ao observador. Numa miragem, quase todas as imagens aparecem ligeiramente acima da posição “verdadeira” ou “geométrica” dos objectos, deslocalização conhecida como “refracção terrestre”. Uma miragem é, por isso, fisicamente impossível de alcançar, e daí decorre a força simbólica da palavra que designa a intangibilidade do próprio objecto de desejo.

As miragens são fenómenos físicos reais e não ilusões de óptica, e por isso podem ser fotografados, mas não será a maior de todas as miragens acreditar que se domestica a miragem através da sua representação? As “Miragens” de Susana Gaudêncio são pedras: rochedos, penedos, ilhotes rochosos, ilhas continentais, arquitecturas circulares, conjuntos habitacionais. São arquétipos da pedra filosofal, servem de modelo à sua demanda intemporal e contêm nelas todas as quimeras e fracassos humanos.

Porque a ideia de “imagem espelho” [image mirroir] está na origem na palavra francesa mirage, e mesmo tendo em conta que o fenómeno não se relaciona, genericamente, com a reflexão (mas com a refracção), o termo “espelhismo” serve-lhe de designação popular alternativa. A Pedra Filosofal talvez seja, então, um prisma revolucionário, um rochedo paradoxal, racionalista e utópico, um sólido espelhado que procura reflectir tão-somente a verdade na miragem.

Mas numa miragem formada por vários objectos desejáveis, em que alguns aparecem invertidos, uns fora de escala e outros distorcidos, como determinar aquele que é verdadeiro? Como o discernir se todas as imagens são igualmente genuínas, correspondendo, cada uma delas, ao objecto inalcançável ele mesmo? E como prevenir o erro de interpretação da cena, indutor de experiências de ilusão óptica/utópica? Susana Gaudêncio pesquisa as fontes, pergunta mais do que responde, cria protótipos como ensaios de resposta e reinicia sucessivamente o procedimento alquímico, revendo os preceitos e alterando-os às vezes quase imperceptivelmente. 

Il est vrai qu'il s'est fait par le miroir ardent des dissolutions radicales (…)

Susana Gaudêncio toma como ponto de partida a promulgação póstuma, na revista L´Organisateur, da proposta de Henri de Saint-Simon, teórico fundador do socialismo cristão, para o estabelecimento de um novo sistema político, baseada na reformulação do Parlamento Francês, de maneira a criar uma organização social conforme e desejável ao tempo das Luzes, estruturada em torno da definição funcional de três chambers (das quais a primeira apresentasse, a segunda avaliasse e a terceira executasse), ao conjunto das quais sobrelevaria o poder supremo da indústria no desenvolvimento sócio-económico da França, a refundação do conceito de propriedade (sobre a égide da máxima produtividade), e uma concepção pacifista e anti-militarista com pretensões universalistas.

O projecto de Susana Gaudêncio desenvolveu-se faseadamente, em parciais homónimas às definidas por Saint-Simon, das quais Chamber of Examination [Chambre d´examen] foi o primeiro projecto apresentado, na Galeria Presença, no Porto, em 2010; seguido de Câmara de Invenção [Chambre d´invention], que teve lugar no espaço Drawing Spaces, em Lisboa, no seguimento de uma residência ali realizada, em 2011.

Chambre d´Exécution é o momento que, agora tornado público na Galeria Carlos Carvalho, em Lisboa, finaliza o programa. Para Henri de Saint-Simon, os membros desta câmara, representantes dos diferentes ramos da indústria que a integrariam de forma quantitativamente proporcional à sua importância na produção nacional, seriam escolhidos de entre os mais ricos, não aufeririam ordenado, e seriam responsáveis pela execução de todos os projectos previstos e analisados pelas câmaras anteriores.

É das miragens, ilusões e desilusões inerentes ao pensamento progressista deHenri de Saint-Simon e de todo o significado histórico e contextual de que se investe a sua produção teórica, utópica e revolucionária, que se alimenta o projecto tripartido que agora se completa. Partindo, enquanto caso de estudo, da sua formulação textual programática, não raras vezes incoerente e apenas uma entre as milhares escritas por livres-pensadores numa época de efervescência propositiva, e associando-lhe outras fontes e referências históricas, mitológicas, literárias, artísticas ou cinematográficas fundamentais, Susana Gaudêncio gera uma iconografia das motivações e sentimentos revolucionários e devolve-a, como possibilidade ficcional, no subjuntivo presente.  

Serialmente desenvolvido em desenho, raciocínio que subjaz a toda a produção mesmo quando unicamente veiculada por estratégias de impressão, este projecto, como toda a obra de Susana Gaudêncio, toma a vídeo animação como dispositivo narrativo preferencial. Os paradoxos e as metáforas, as deslocações de sentido e as reformulações e inversões imagéticas nelas operadas, consubstanciam novas ficções que, ao contrário das miragens sempre constrangidas a uma pequena faixa de céu no horizonte, abraçam a totalidade do universo que Susana Gaudêncio escolheu criar. 

LÍGIA AFONSO, AGOSTO 2011

 

Exposição