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Sobre

A Desconstrução, processo de análise crítico-filosófica criada por Jacques Derrida, previa o estudo formal de conceitos universalmente aceites e estáveis, estendeu-se à crítica literária através de uma metodologia de análise das estruturas textuais com J. Hillis Miller, Harold Bloom e Geoffrey Hartman, tendo formado também um ponto de partida para o desconstrutivismo na arquitectura, onde Frank Gehry, Daniel Libeskind, Rem Koolhaas, Peter Eisenman, Zaha Hadid, Coop Himmelb(l)au, e Bernard Tschumi são intervenientes. Via do formalismo radical que propunha retirar o valor simbólico aos elementos arquitectónicos, o desconstrutivismo analisa o desdobramento de estruturas através da fragmentação e manipulação da superfície estrutural, pelo uso das assimetrias e ordens geométricas múltiplas, que envolvem as superfícies numa métrica descontínua, reforçando a ideia de movimento, dinamismo e energia vibrantes. Partindo deste ponto, podemos dialogar sobre as contaminações do desconstrutivismo na arte contemporânea, numa perspectiva que permite percepcionar e observar a forma como os elementos se inserem no espaço e também estudar as combinações de elementos nos objectos, observando um princípio de expansão e outro de contracção.

 

Isidro Blasco em Stairs II (2007, madeira, fotografia e cartolina acid-free, 180 x 20 x 120 cm) e Tree, (2007, madeira, fotografia e cartolina acid-free, 185 x 160 x 150 cm) desenha ritmos e modulação no espaço através das repetições e rotações da forma, que revestem a obra de quebras, superfícies angulares, enformando uma densidade espacial agressiva. Para Blasco, o espaço é uma entidade descontínua e palco de tensões entre os corpos e o vazio: a forma desdobra ritmos que, não se esgotando nos limites do volume material, desenvolve campos de expansão e percepção.

 

Casa Amorosa (2008, fórmica e PVC em MDF, dimensões variáveis a partir de 50 x 100 x 100 cm) de José Bechara parte do cubo e do rectângulo para provocar deslocações e desarticulações das estruturas que enformam aglomerações de linhas e volumetrias, através da explosão de módulos. O mesmo modelo de estruturas pode encontrar-se nas peças Banco para Janela (série paisagem doméstica, 2002, lightjet print, 120 x 80 cm) e Vista Lateral 2 (série paisagem doméstica, 2002, lightjet print, 80 x 120 cm).

Tendo como base de reflexão os processos da espacialidade e funcionalidade arquitectónicos, Amorfosis 002 (2007, impressão directa sobre placa de alumínio e policarbonato celular, 150 x 300 cm)e Amorfosis 006 (2007, impressão directa sobre placa de alumínio e policarbonato celular, 170 x 86 cm) de Aitor Ortiz, inscrevem dinâmicas através de uma malha rígida e compacta intensificadas pela uso do preto e branco e pelo cruzamento entre planos e estruturas, vigamentos, perfis e superfícies, que são rebatidos e cortados e que adensam a artificialidade dos elementos estruturadores da arquitectura.

A série Facades, a que pertencem Bank of China 2, Hong Kong (2008, C-Print / Diasec, 180 x 125 cm, Ed. de 5 #1) e Tienhe Lu (2006, C-Print / Diasec, 180 x 125 cm, Ed. de 5 #3) de Roland Fischer extrai das fachadas de edifícios-ícone da arquitectura contemporânea os seus elementos construtivos e ornamentais e, colocando-os num mesmo plano fotográfico, subtrai o seu contexto tridimensional real e converte-os numa superfície plana e abstracta. As fachadas, elemento mais representativo do edifício são assim devolvidas em composições de extrema depuração em que são realçados os efeitos cromáticos, variação tonal, ritmo e efeitos de superfície, reduzindo-as a um fragmento abstracto, bidimensional, plástico, puramente pictórico.

 

Com a exploração de uma via não distante do neoplasticismo, o regresso à forma e mancha pura, Richard Schur em La Rouge (2009, acrílico s/ tela, 50 x 60 cm) Le Bleu, (2009, acrílico s/ tela, 50 x 60 cm) Night Hawk I (2009, acrílico s/ tela, 41 x 36 cm) provoca campos de acção expansivos pela fluidez de ligação entre os blocos de cores planas, amplas e contrastantes e o uso de texturas subtis.

 

A densidade espacial de Sem título, (díptico, 2009, acrílico s/ linho, 250 x 430 cm) de Manuel Caeiro revela uma obsessão pela ordenação do espaço, mostrada através dos efeitos da volumetria, o que resulta numa massa densa e vibrante com alternâncias entre sombras e profundidades. A linha central que divide a obra, devolve-lhe equilíbrio perturbado pelo uso de cores vibrantes, pelas intermitências do padrão, pela geometria rígida das linhas e pontos de fuga e também pelas interferências do discurso, que são resultado do trabalho de atelier.

 

Em Radiaciones SGM6 (2006, técnica mista s/ fotografia, 180 x 240 cm), Manuel Saro analisa os efeitos vibrantes da composição de planos e da gradação de cor, do jogos de sombras, luz e planos inserindo-os em estruturas de composição modular em alternância.

 

Na sua mais recente série de trabalhos, em que se incluiSem título (2009, acrílico s/ papel, 132 x 152 cm) José Lourenço explora as distorções dramáticas da arquitectura desconstrutivista: a dureza das linhas e cores que descrevem os planos convexos, as variâncias tonais que conferem uma artificialidade plástica e revestem estes trabalhos de níveis de percepção dinâmicos.

 

Em Processo: Construção, Apropriação (noite) (2009, Lambda Print, 90 x 90 cm, Ed. de 3  #1), Processo: Construção, Apropriação (amanhecer), (2009, Lambda Print, 90 x 90 cm, Ed. de 3  #1) , Processo: Construção, Apropriação (anoitecer), (2009, Lambda Print, 90 x 90 cm, Ed. 3 #1) dePedro Duarte Bento, poderemos observar pelas diferenças de luz, que influem decisivamente nas volumetrias, e as inscrições sobre a fotografia, as marcas da metodologia de estudo arquitectónico, para realizar uma apropriação, estruturação e reinvenção de novas formas sobre o construído.

 

Poderemos afirmar que, para este conjunto de artistas, as formas, superfícies e planos não constroem isoladamente o espaço, mas também a interacção entre os volumes, linhas em progressão e superfícies modulares ritmadas, revelando uma procura de espaços intermédios ou rooms da percepção espacial.

 



CEIA, Carlos, "Desconstrução" in E-Dicionário de Termos Literários, coord. de Carlos Ceia, http://www.fcsh.unl.pt/edtl> (09/11/09)

Segundo a exposição Deconstructivist Architecture em Nova York, comissariada por Philip Johnson e Mark Wigley, 1988.

 

Exposição