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Para Roland Barthes, a diferença entre um fotógrafo-amador e um artista, é a de que, no primeiro, a imagem vai ao encontro do fotógrafo; este é seduzindo pela realidade e apenas actua automaticamente sobre o dispositivo. A paisagem produz a imagem e o fotógrafo-amador não cria nem acrescenta à realidade. Esta apresenta-se - e ele, deslumbrado - obedece ao seu estímulo. No segundo caso, o artista é parte activa de um processo criativo de conceptualização da realidade. Já não é apenas a paisagem que aparece aos seus olhos, o artista constrói um discurso com a realidade, actuando, agindo sobre esta, através de uma linguagem
própria, autoral e não reprodutível.
As imagens do Palácio da Rosa estabelecem um compromisso entre a imagem que se quer documental, porque pressupõe um compromisso de encomenda, e um olhar de um artista que não consegue abstrair-se da sua condição. A autoria é a linguagem que o artista constrói com o seu trabalho e que está nesse jogo de decisões, de escolhas e de construções da imagem. É um território que nunca pode ser neutro, da qual o
artista não se pode desembaraçar. E ao fotografar espaços arquitectónicos, Eurico Lino do Vale não se desvia do núcleo artístico que tem desenvolvido nestes dez anos de trabalho. Trata-se de um percurso sólido, focado na transcendência do retrato e na relação de comunhão entre o retratado, o artista, e o público. Lino do Vale
detêm-se na experiência do retratar e na descoberta da personalidade que se transpõe para a imagem. É aqui que entra a imagem construída pelo fotógrafo-artista que, pela utilização de recursos técnicos - e do seu olhar, de que, mais uma vez, não se pode deslocar – constrói um discurso e mostra uma imagem com ressonâncias do que é pessoal e único a cada pessoa. É esse mostrar, presente no acto de tirar a foto em que o retratado se apresenta e o fotógrafo se apropria, que está presente no acto de revelação do espaço arquitectónico do Palácio da Rosa. Este edifício senhorial do séc. XVI que passou por gerações de famílias como a de Luís de Brito Nogueira, a dos Viscondes de Vila Nova da Cerveira, a dos Marqueses de Ponte de Lima ou a dos
Marqueses de Castelo Melhor, mostra-se ao fotógrafo, dá-se a conhecer. Por isso, este levantamento do Palácio da Rosa é um reconhecimento de que estes espaços históricos contêm um repositório emocional que o fotógrafo quis captar. Para o artista, revelar o espaço é encontrar a sua intimidade – essa transcendência que vai para além do espaço físico. Celebrando ao mesmo tempo a arquitectura e a história, Eurico Lino do Vale resgata a memória dos espaços que sobrevive através da imaterialidade do lugar - a presença e a ausência, a memória e o esquecimento.
Eurico Lino do Vale nasce no Porto em 1966 . Vive e trabalha em Lisboa.
Após ter concluído o programa de estudos de fotogra a no Ar.Co., obteve, em 1994, uma bolsa da Fundação Cauloste Gulbenkian para realizar um mestrado em Dusseldorf. Inicia o seu percurso artístico em 1999 com a exposição individual Retratos de Alfama (Lisboa anos 90 - Convento de S. Salvador. Alfama) inaugurando também a sua pesquisa sobre a natureza do retrato fotográfico. Na série Retratos de Homens (Galeria Luís Serpa, Lisboa, 2003) 13 indivíduos são fotografados com um enquadramento semelhante, a fim de, sem distúrbios de qualquer ordem, centrar a atenção do observador na heterogeneidade e complexidade do rosto humano. A série Nova Geração (Centro de Arte Moderna José de Azeredo Perdigão, Lisboa, 2001) é um projecto em processo de continuidade que retrata crianças na idade pré-adolescente, escalão etário ambíguo cuja personalidade ainda está em processo de formação. Em Retratos e Outras Situações Encenadas (Galeria Ara, Lisboa, 2001) constrói uma teatralidade assumida nas poses das personagens em retratos de grupo. A série Retratos dos Túmulos dos Reis de Portugal apresentada na Carlos Carvalho Arte Contemporânea em 2007 foi responsável pela sua nomeação ao prémio BESphoto em 2008. Levantamento do Palácio da Rosa, Lisboa, mostrado em
parceria com o atelier Bugio, constitui o seu último trabalho.

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